28 de novembro de 2009

A língua lambe



A língua lambe

A língua lambe as pétalas vermelhas
da rosa pluriaberta; a língua lavra
certo oculto botão, e vai tecendo
lépidas variações de leves ritmos.

E lambe, lambilonga, lambilenta,
a licorina gruta cabeluda,
e, quanto mais lambente, mais ativa,
atinge o céu do céu, entre gemidos,
entre gritos, balidos e rugidos
de leões na floresta, enfurecidos.
Carlos Drummond de Andrade

Avesso


Estou pensando no que não devo,
querendo o que não posso,
sonhando com que não tenho.
E obcecada com a ideia...

25 de outubro de 2009

17 de outubro de 2009

Flor da pele


Ando tão à flor da pele

Qualquer beijo de novela

Me faz chorar

Ando tão à flor da pele

Que teu olhar "flor na janela"

Me faz morrer

Ando tão à flor da pele

Meu desejo se confunde

Com a vontade de não ser

Ando tão à flor da pele

Que a minha pele

Tem o fogo

Do juízo final...
Barco sem porto

Sem rumo, sem vela

Cavalo sem sela

Bicho solto

Um cão sem dono

Um menino, um bandido

Às vezes me preservo

Noutras, suicido!

Ando tão à flor da pele

Qualquer beijo de novela

Me faz chorar

Ando tão à flor da pele

Que teu olhar "flor na janela"

Me faz morrer

Ando tão à flor da pele

Meu desejo se confunde

Com a vontade de nem ser

Ando tão à flor da pele

Que a minha pele

Tem o fogo

Do juízo final...

Barco sem porto

Sem rumo, sem vela

Cavalo sem sela

Bicho solto

Um cão sem dono

Um menino, um bandido

Às vezes me preservo

Noutras, suicido!
Oh, sim!

Eu estou tão cansado

Mas não prá dizer

Que não acredito

Mais em você

Eu não preciso

De muito dinheiro

Graças a Deus!

Mas vou tomar

Aquele velho navio

Aquele velho navio!
Barco sem porto

Sem rumo, sem vela

Cavalo sem sela

Bicho solto

Um cão sem dono

Um menino, um bandido

Às vezes me preservo

Noutras, suicído!

Zeca Baleiro

12 de outubro de 2009


Sonhos da Menina

A flor com que a menina sonha
está no sonho?
ou na fronha?
Sonho
risonho:
O vento sozinho
no seu carrinho.
De que tamanho
seria o rebanho?
A vizinha
apanha
a sombrinha
de teia de aranha . . .
Na lua há um ninho
de passarinho.
A lua com que a menina sonha
é o linho do sonho
ou a lua da fronha?

Cecília Meireles

6 de setembro de 2009

A arte de ser feliz...


Houve um tempo em que minha janela se abria sobre uma cidade que parecia ser feita de giz. Perto da janela havia um pequeno jardim quase seco.

Era uma época de estiagem, de terra esfarelada,e o jardim parecia morto.

Mas todas as manhãs vinha um pobre com um balde, e, em silêncio, ia atirando com a mão umas gotas de água sobre as plantas.

Não era uma rega: era uma espécie de aspersão ritual, para que o jardim não morresse.

E eu olhava para as plantas, para o homem, para as gotas de água que caíam de seus dedos magros e meu coração ficava completamente feliz.

Às vezes abro a janela e encontro o jasmineiro em flor.

Outras vezes encontro nuvens espessas.

Avisto crianças que vão para a escola.

Pardais que pulam pelo muro.

Gatos que abrem e fecham os olhos, sonhando com pardais.

Borboletas brancas, duas a duas, como refletidas no espelho do ar.

Marimbondos que sempre me parecem personagens de Lope de Vega.

Ás vezes, um galo canta.

Às vezes, um avião passa.

Tudo está certo, no seu lugar, cumprindo o seu destino.

E eu me sinto completamente feliz.

Mas, quando falo dessas pequenas felicidades certas, que estão diante de cada janela,

uns dizem que essas coisas não existem,

outros que só existem diante das minhas janelas,

e outros, finalmente,

que é preciso aprender a olhar, para poder vê-las assim.

Cecília Meireles

3 de setembro de 2009

Nós podemos abrir outras caixas...


"...e Pandora trouxe uma caixa, enviada por Zeus em sua bagagem.
Ela acabou abrindo a caixa, e liberando os males que haveriam de
afligir a humanidade dali em diante: a velhice, o trabalho, a doença, a loucura, a mentira e a paixão.
No fundo da caixa, restou a Esperança..."


http://stregailgattonero.spaces.live.com/blog/cns!8AA5140AB70931B6!642.entry

30 de agosto de 2009

Sugar e ser sugado pelo amor...

Sugar e ser sugado pelo amor
no mesmo instante boca milvalente
o corpo dois em um o gozo pleno
que não pertence a mim nem te pertence
um gozo de fusão difusa transfusão
o lamber o chupar o ser chupado
no mesmo espasmo
é tudo boca boca boca boca
sessenta e nove vezes boquilíngua.
Carlos Drummond de Andrade

28 de agosto de 2009

Fernando Pessoa, sempre...


Eu amo tudo o que foi

Tudo o que já não é

A dor que já não me dói

A antiga e errônea fé

O ontem que a dor deixou

O que deixou alegria

Só porque foi, e voou

E hoje é já outro dia.

Fernando Pessoa

 

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